Forma de Vida

Antes de estender a minha escrita pelos vários parágrafos que relatarão este conto, tenho a necessidade de esclarecer que a história que vos quero contar não é minha. É a história de alguém que nunca conheci para além do vislumbre da sua pele. Não sou eu. Pensei muito se seria ou não correto apropriar-me assim da vida de outra pessoa e decidir eu o seu rumo, mas claramente deixei a minha vontade, entenda-se egoísmo, sobrepor-se a qualquer questão ética que invadisse a minha consciência. A minha mente pesa-me demasiadas vezes. Sinto vergonha, asco e por vezes até medo das capacidades do meu próprio pensamento, e por essa mesma razão, desta vez, permito-me apenas escrever e agir de forma espontânea, para que, pelo menos uma vez na vida, possa dizer sem vergonha — fiz merda — porém fi-la com toda a assertividade e intrepidez, algo que não me permito frequentemente. Tenho sempre receio que as minhas ações me encaminhem para um lugar tenebroso e que não tenha escapatória. Ou pior do que isso. Fico com medo que as minhas ações me levem para o lugar do nada. Terra do vazio. Por tudo isto que já vos expliquei decidi assumir o papel de outro ser, que viveu num tempo que não é o meu e viveu uma história que não é a minha. Tendo em conta essas adversidades contextuais, apenas sei exatamente como começar a história. Assumir o corpo de outra pessoa dá o seu trabalho. Por isso, não faço ideia como terminará este conto. Apenas sei o que de mim colocarei na personagem.

São cerca das 7h30 da manhã e eu, Maria Anunciada, a empregada lá de casa, já comecei a preparar os cheiros e fumaças para o almoço. Sei que tenho as mãos rudes de trabalhar no campo, porém corteses, de quem sabe estar e isso ajuda-me bastante nas tarefas domésticas, principalmente na cozinha. Começo por misturar, na bancada principal da cozinha, a água, o sal e a farinha para os pastéis de massa tenra. É sábado e isso significa dia de piquenique para a família Magalhães. Compreendo que não sou uma mulher bonita, não, porque não o sou verdadeiramente, mas porque aprendi a esconder-me do mundo. Considero-me uma pessoa discreta e não gosto que me vejam. Tenho medo do mundo, ainda que, por alguns instantes, o consiga apreciar com uma enorme vontade. Sou uma mulher com muitas formas e tenho os olhos quase sempre cansados. Gosto de cozinhar, também porque nunca me foi dada oportunidade para mais. Desde os 11 anos que trabalho para a mesma família como cozinheira. Antes disso, ajudava os meus pais no campo e ainda hoje o faço. Com o tempo, aprendi a moderar os meus jeitos. Não grito quando não é preciso e só falo quando é estritamente necessário, não gosto de desperdiçar os poucos verbos que conheço em conversas vãs e inúteis e por essa mesma razão opto por me esconder, pois tenho medo que toda a aura misteriosa que construí à minha volta seja desmascarada. Sou forte, nada formosa, tenho o cabelo louro escuro com fios bastante longos, mas muito pouco cuidados e por isso opto sempre por tê-lo apanhado e escondido debaixo da minha touca de cozinha. Na realidade, nem a minha mãe, nem os meus patrões me deixariam estar de outra maneira. Eu sempre fui uma mulher que compreendia bem as regras, mesmo quando não eram audíveis. Acho que sempre tive o dom de ler bem nas entrelinhas. A minha pele ainda é bastante jovem, contudo já está muito gasta, cheia de cicatrizes e marcas de uma infância construída ao sol. No meu íntimo, eu, Maria Anunciada, sei que não quero ser outra pessoa. Sempre quis ser eu mesma, mas em pleno. Sempre ambicionei ser eu mesma, mas com formas de gigante, porque imagino que essa deve ser a única maneira de conseguir pisar firmemente o chão da terra. Hoje, em 1956, tenho 23 anos. Nunca estudei e sempre trabalhei. Nunca namorei, apenas beijei. E foi um beijo de que nem gostei. Foi rápido, seco e que pouco me fez sentir para além de deceção. O meu primeiro beijo foi-me praticamente roubado por um homem bastante mais velho do que eu. Apesar de inesperado, queria algo mais, ora pois um homem carregado de experiências deveria saber o que fazia, mas não foi esse o caso. Foi tudo muito murcho, que mais valia ter beijado um morto, pelo menos, sempre sentiria alguma coisa, mesmo que fosse repulsa. Já tinha tido várias oportunidades de selar o meu primeiro beijo com alguém. Sempre imaginei algo pausado, mas firme, leve e até molhado, mas acima de tudo, esperava algo repleto de desejo e emoção. Um beijo deveria transmitir-me, obrigatoriamente, a mesma sensação de quando vesti as roupas para a minha primeira comunhão. Esse foi o primeiro momento em que verdadeiramente me senti mulher, uma mulher, a mulher. Nunca compreendi bem o porquê de esse momento ter sido tão importante na minha vida. Talvez fossem as expectativas dos outros que caíram sobre mim, que me fizeram despertar. A minha mãe chorava como se tivesse visto um anjo. Penso que nunca tinha olhado para mim daquela maneira.

— Ai filha, como estás linda. A mãe nunca te tinha visto assim, pareces com uma das filhas do senhor doutor, mais bonita até.

O meu pai pouco disse ou manifestou, mas percebi que para ele aquele era um momento importante. De qualquer maneira, esta sensação de plenitude nunca mais se voltou a repetir. A minha vida é uma rotina. Todos os dias sei como o dia vai começar e como vai acabar. Não é que não aprecie aquilo que tenho. Mas, ainda assim, quero viver e mostrar que tenho uma vida e que sou vida.
Já é tarde. Estamos no final da manhã e ainda não saímos de casa.

— Não te esqueças de levar estes sacos para o carro, senão não há piquenique para ninguém. E despacha-te. Corre, vai! — disse-me a governanta da casa, com o tom autoritário do costume.

— Sim, sim, vou já — respondi-lhe nervosa.

Raramente sou eu quem vai aos piqueniques com os patrões. Normalmente quem vai com eles é a Dona Glória, a tal governanta, mas hoje ela não pode. Tem tantas dores nas costas, que quase não se consegue mexer, por isso limita-se a dar ordens. Sobre a Dona Glória, pode dizer-se que ela é quase da família Magalhães. Fala com os patrões como se fosse ela a senhora da casa. O seu tom é sempre altivo e seguro.

— Aqui em casa mando eu — diz ela sempre que tem oportunidade, mas isto claro, sempre que os patrões não estão por perto.

Sabe de tudo o que acontece na vida dos patrões, dentro e fora de casa. Por vezes isso causa em mim uma irritação inexplicável. Como ousa ela ser mais do que aquilo que lhe cabe? Quem lhe deu esses poderes? Quando olho para ela, há dias em que penso que toda esta minha submissão será a minha desgraça. Nem dona, nem beijo, apenas “sim, senhor”, “sim, senhora”, “sim, menino”, “sim, menina”. Parece que nada mais sei dizer. A minha vida é só tachos e missas muito bem agendadas. E eu tento respeitar esse meu destino, porque afinal de contas sempre me ensinaram a honrar a minha sorte e a não me queixar. Mas quando já ninguém me consegue ouvir, apenas eu, a mim mesma, desabafo as minhas verdadeiras vontades. Finalmente já estamos a caminho. Vamos em direção ao mar. Os costumes da casa nunca mudam. Todos os fins de semana, seja sábado ou domingo, é obrigatório ir à praia. A viagem para lá parece sempre maior do que a vinda para cá. Fico sempre ansiosa para ver o mar. Na realidade nem sei bem nadar, aliás não sei mesmo nadar, porque nunca me ensinaram. Eu sou igual aos meus pais nesse aspeto. Eles são seres da terra. O mar, para eles, é como se fosse um estado que não pode ser conquistado.

O dia parecia que ia ser igual a todos os outros, mas o mar não estava para aí virado, o vento estava forte e a areia feria a pele. Por isso, decidiu-se regressar a casa bem mais cedo do que era costume, o que me deixou bastante chateada. Estes são os poucos dias em que consigo crescer. Sair um pouco de mim mesma e ver o que existe fora do meu espaço conquistado. Mas enfim, tenho que aceitar o meu destino, não me posso esquecer disso.

A caminho de casa, o doutor Magalhães anuncia a todos que vamos conhecer um sítio novo.

— Não vamos já para casa, tenho que vos mostrar um sítio.

— Que não seja muito longe, por favor. Esta ida à praia deixou-me indisposta — respondeu a senhora doutora.

— Não é longe e as miúdas vão gostar muito, até tu, Maria Anunciada — sorri discretamente perante esta afirmação.

— Onde é que vamos, papá? — perguntou uma das filhas.

— Chama-se Buçaco. Fica perto do Luso, mas peço-vos que não façam mais perguntas. Aguardem até lá chegarmos.

Todos dentro do carro gritam que sim animadamente, eu incluída, ainda que baixinho. Nem sei bem o que me espera, mas hoje não me apetece mesmo respeitar o rigor do meu dia-a-dia, pois também fico cansada de tanta rigidez.

Chegamos. Realmente nunca tinha cá estado, nem fazia bem ideia de onde estava. Eu já estava habituada a uma casa grande, de grandes formas, de grandes estruturas e cheia de vida, pelo menos comparativamente com a minha. A minha casa sempre foi muito pautada pela modéstia, mas Nossa Senhora, como este sítio é belo. Quero perder-me neste lugar e nunca mais me encontrar. Como é possível que a beleza dos sítios desperte em nós emoções tão fortes? É neste momento que eu acho que quero tudo. Quando me permito senti-lo, quero o mundo todo na minha mão, mas grande parte das vezes tenho pavor de agir. Perante esta imagem sinto que já não tenho medo de nada. Resolvi caminhar sozinha. Enquanto os pais brincavam com as suas filhas, eu ia-me afastando daquele cenário familiar e aproximando-me mais de uma imagem só minha. Vejo o palácio por dentro e por fora. Vejo malas por todo o lado. Consigo perceber que neste sítio as pessoas pernoitam. Que sorte a delas, que vida a delas. As paredes são grossas, firmes e frias. As janelas são grandes e dão abertura ao verde, que entra com força naquele espaço, enquanto o sol ainda marca o dia. Pergunto-me como será passar aqui a noite? Os jardins em frente são muito bem cuidados, parece até demasiado pensado. Nada aqui tem aspeto natural, mas é tudo tão bem tratado que esqueço as paisagens a que estou habituada, de onde eu venho, e abraço este novo cenário composto até ao último pedaço de relva. Cada vez mais afastada dos meus patrões, caminho em direção à mata, mas hoje não me quero preocupar com nada. Essa é a função dos pais, preocuparem-se com tudo, não a minha. Eu não sou mãe. E sim, é com toda a arrogância que me permito dizê-lo. Quando era mais nova tive um acidente com uma máquina agrícola do meu pai e o médico avisou-os de que provavelmente nunca poderei ter filhos. Muito provavelmente, ainda que os possa conceber, jamais os conseguirei carregar até ao fim. Inevitavelmente tive de aceitar esta minha profecia.

Depois de andar bastante tempo pela mata percebo que estou perdida, mas não me preocupo muito. Não vejo ninguém, mas observo a beleza constante e isso deixa-me tranquila. Gostava de dizer que sei nomear todas as árvores que vejo, mas algumas sinto que as estou a ver pela primeira vez. Não são naturais da minha casa. Há tanto verde à minha volta: verde escuro, verde claro, verde esmeralda, verde musgo, verde lima, verde tropa, verde branco e mais verde. Os troncos das árvores são de uma altura astronómica, que parece que foram colocados aqui somente para nos mostrar quão longe estamos todos do céu. Vejo finalmente água. Claro que este verde não se sustenta sozinho, precisará sempre do alimento que vem da água. Paro, ajoelho-me e debruço-me sobre o lago, porque quero sentir a temperatura da água, mas assim que o faço surge algo bem do fundo do lago que me assusta.

— Ah! — grito bem alto, enquanto o meu corpo cai para trás.

Do nada, aparece uma senhora, vinda do lago, que estranhamente sai de lá como se não estivesse estado dentro de água, pois está completamente seca. Nem uma pinga de água se nota ao longo do seu corpo e da sua roupa. Ainda estou sem palavras. O medo costuma petrificar-me, por isso, mesmo se quisesse pedir ajuda urgentemente, o meu corpo não me deixava. Maior traição não pode existir. Nem uma única palavra consigo expressar, o que é terrível, pois significa que, caso esta pessoa me quisesse fazer mal, estava mais do que à vontade para fazê-lo. O medo vence-me sempre. É uma batalha que estou mais do que habituada a perder. Durante algum tempo esta mulher não me dirigia uma única palavra. Limitava-se a olhar para mim. Por momentos pensei que fosse Nossa Senhora, mas rapidamente desfiz-me dessa ideia. Era bem mais pequena, entroncada, de pele escura e olhos intensos, mas cansados. De todo, não se parecia com a imagem etérea de Nossa Senhora a que fui habituada. Nem branco vestia. Independentemente de quem fosse, manteve-me petrificada durante algum tempo. Parecia que se passaram horas até que por fim me dirigiu a palavra:

— Despe a tua pele e entra no lago — disse-me ela com toda a calma do mundo.

Não respondi. Ainda não conseguia, mas ela mantinha-se à minha frente, sobre o lago. Parecia que flutuava.

Um pouco mais calma, mas com a voz trémula consegui falar-lhe.

— Não posso, não sei nadar!

— Não precisas de saber nadar. Quando despes a tua pele deixas de ser tu por inteiro e tornas-te um infinito de possibilidades. O medo que sentes agora pode deixar de existir.

— Mas porque hei-de eu despir a minha pele? Para quê? Eu gosto da minha pele.

— Acredito que sim. Mas eu sei que ela já te cansa.

— Sim, mas não o suficiente para a despir. E, mesmo se o quisesse fazer, não saberia como.

— Por isso é que estou aqui. Eu vim para te ajudar.

Nada desta conversa fazia sentido. Despir a minha pele? Como assim? Deve ser uma tarefa tão dolorosa, que prefiro nem tentar. O peso da minha pele já me atormenta o quanto basta.

— Quando vestes a pele de outro ser começas uma nova vida. Saberás que vida foi, que vida é, porém nunca saberás que vida será. Terás de vivê-la para o descobrir — explica-me a senhora do lago — Acontece que, assim que vestes a pele, que outra pessoa decidiu despir, alcançarás o seu passado. Serás sempre tu mesma, contudo tomarás conhecimento de que essa pessoa também teve um passado, que tu assumirás como teu. Recordarás todos os seus sabores, todos os os seus cheiros e as suas texturas, como se tivesses sido tu a viver aquela vida.

— Posso então escolher que pele vestir?

— Não! — respondeu-me imediatamente — Este processo é feito de forma muito delicada. A pele só pode ser despida de uma pessoa de cada vez. Por isso terás de aceitar a pele da última pessoa que a despiu, não há opções.

— Mas não posso escolher se gosto ou não dessa pele? Porque a alternativa pode ser um passado pior do que o meu.

— Terás de aceitar a tua sorte. A vida é um evento arbitrário. A chance faz parte do nosso viver. Aceita-a tal como é.

Enquanto pensava neste dilema vejo que começa a surgir à superfície do lago restos de um corpo. Aliás, a pele de alguém. Tal como as cobras, esta pele teve de ser despida, porque já não servia. Mas ao contrário das cobras esta pele poderia ter continuidade.

— A mudança de pele pode acontecer a qualquer pessoa. Somente é necessário que se encontrem condições para tal. Contudo, se ninguém vestir esta pele ela será apenas uma vida desperdiçada. Para te ajudar a pensar melhor, coloca as coisas desta maneira: Tens que pensar que qualquer pedaço de terra nunca é inteiramente virgem. Antes de plantares as tuas sementes, a terra já era terra. Tu é que não o sabias, ou pelo menos, não pensavas nisso. Aquilo que constróis faz parte da tua história e daqueles a quem tu envolves, mas antes de tu fazeres algo com alguma coisa, essa coisa já era algo, simplesmente tu não o vias, mas isso para ti deixou de importar. Apenas te importará o que tu fizeste com aquele pedaço de terra que passaste a ver, porque resolveste agir.

— Mas porquê eu? — questiono-a com uma certa aflição.

— Eu apenas apareço a quem me chamou, mesmo que essa pessoa não o tenha verbalizado.

— Eu tenho consciência de que às vezes quero mudar de terra e plantar-me noutro lugar. Mas este processo parece muito drástico e tenho medo que corra mal.

— Medo terás sempre, sobretudo se mantiveres a tua pele, da qual estás cansada. Pedes sempre por mais, mesmo que seja na presença da vergonha e do medo. A tua insatisfação é tão palpável, que chega a ser áspera.

— Mas sinto que não me estás a dar alternativa. Como posso eu decidir agora? Ainda tenho tanto para fazer quando chegar a casa, todas as lides domésticas estão a meu cargo. Como posso descurar assim o meu trabalho?

— Mas não deixarás de ser tu, serás sempre tu, mas também com as memórias da pessoa dona desta pele, ou seja, este processo apenas te acrescentará, não diminuirá. Como já te expliquei antes, a terra nunca é verdadeiramente virgem, tu poderás acrescentar ainda mais a essa terra, ainda que antes não a visses e de repente a passaste a ver.

A minha cabeça começou a latejar de tanto pensar. Em vez de perder a pele sinto que perdi a cabeça de vez. A Dona Glória sempre me disse que eu era muito corpo e pouca cabeça e neste momento sinto que já perdi a cabeça e que estou em vias de perder o corpo também. Nunca me senti inteiramente à vontade com nada. Sou doméstica e cozinheira desde que me conheço. Antes disso apenas me lembro de ser trabalhadora do campo. Não é que isso me pese. É engraçado que, enquanto penso, este sítio não se alterou nem um bocadinho. Tudo o que via continuo a ver. É bom saber que pelo menos o medo não me cega. Também o medo que sinto nunca é resultado de uma aventura ousada. Nunca fui brava o suficiente para me atrever a sentir o derradeiro medo, mas também nada sei sobre dor. O que posso eu entender sobre dor e medo, se apenas me conheço a mim mesma e bastante mal? Apenas conheço bem a minha dor e os meus assuntos e claramente isso torna-se insuficiente quando quero tornar-me gigante. Terei de vestir a pele de outra pessoa para aprender o verdadeiro significado do medo e da dor? Apenas sei que não posso continuar a aceitar que a terra era virgem antes de eu lá ir plantar sementes.

Ao longo destes anos consigo ver-me a crescer balofa por fora, mas oca por dentro e o pior é que sinto que não tenho forças para mais do que aquilo que sei. Sou gorda e balofa porque devoro a superfície e sou um ser muito malnutrido. Se aceitar esta proposta posso vir a ser mais saudável, quem sabe?

— Se eu disser que sim a toda esta loucura, o que acontecerá à minha pele?

— Ficará guardada no Lago Grande do Buçaco até que alguém a queira vestir.

— E porquê aqui? Porquê este sítio?

— Porque esta mata não se construiu sozinha. Alguém teve que a vestir e vejo como tu adoraste cada pedaço de terra que pisaste.

— Sim, mas é diferente. Eu não quero apropriar-me assim da vida de outra pessoa. O que é que isso faria de mim?

— Faria de ti tudo aquilo que quisesses. Terias mais força para ser...

— Ou não — interrompi-a de imediato.

— Ou não... é verdade! Mas pelo menos estarás a agir e não apenas a conformar-te.

— Conformar-me? Sinto dureza nas tuas palavras — interrompo-a novamente.

— Não sou eu que as digo. Simplesmente replico aquilo que já disseste sobre ti mesma.

Não consigo responder mais. Por momentos preciso de parar e volto a petrificar. Para além do medo, a cobardia também me assombra. Eu sei que sou fraca. Mas também não sei se aguentarei ser forte? Muito provavelmente, dois dias depois de vestir esta nova pele desfaço-me em mil fragmentos, que ficarão perdidos na terra, serei apenas pó, daquele que causa alergias. Este dilema é sem dúvida nauseante. Ficar como sou e viver conformada? Ou mudar para aquilo que posso vir a ser, mas sem certezas de que essa escolha não será o meu infortúnio?

— Preciso de mais tempo para pensar — tentei exigir-lhe com assertividade.

— O tempo é apenas a desculpa que usas para te iludires e não significa nada. O tempo para ti é o vazio.

— Não gosto da maneira como falas de mim.

— Não sou eu que o digo, apenas replico aquilo que já disseste sobre ti mesma.

— Eu nunca fui assim tão dura.

— Foste.

— Mas eu nunca me quis ferir.

— Quiseste.

— Não gosto de ti.

— Eu sei, mas apareci-te, porque necessitavas de fazer uma escolha e não posso sair daqui enquanto não a fizeres.

A sensação nauseante não desaparece. O dia estava a correr tão bem. Se calhar, é melhor atirar-me para dentro do lago. Está gelado, mas pelo menos assim não preciso de despir-me. Por instantes, penso na Dona Glória, mandona como ela é, já teria decidido por mim e tudo isto já estaria resolvido. Assim, já poderia percorrer a mata à vontade, com ou sem nova pele.

— Se eu aceitar, não há como voltar atrás?

— Não, terás de aprender a viver com as consequências das tuas próprias escolhas, pois são tuas.

Fico em silêncio novamente. Preciso de pensar.

— Está bem. Dá-me essa pele para vestir.